Posts com a Tag ‘juros’

12 de maio de 2017
Um ano de governo Temer

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado no Valor Econômico em 11/05/2015)

 

Há um ano, às vésperas da formalização do afastamento da ex-presidente Dilma Rousseff, o então vice-presidente Michel Temer preparava-se para assumir o governo. Nomeado presidente interino no dia 12 de maio e efetivado no cargo em 31 de agosto, Temer apostou todas as fichas na capacidade de aglutinar uma maioria política no Congresso Nacional, suficiente para implantar as reformas institucionais que há tempos o país demandava.

Em setembro do ano passado, vencidos os meses de interinidade, os planos do governo Temer tornaram-se mais ousados, com a acentuada defesa da PEC (proposta de emenda constitucional) do teto dos gastos públicos – promulgada pelo Congresso em fins de 2016 – e da reforma da previdência social, cuja tramitação tem se acelerado. Contava com isso para impulsionar o crescimento econômico e angariar prestígio popular.

Naquela altura, a equipe do novo presidente fez previsões otimistas para a evolução do PIB e, valendo-se das estimativas do Boletim Focus – que capta a média das projeções das instituições financeiras para vários indicadores econômicos – apresentou a expansão de 1,3% do PIB em 2017, preconizada pelo Focus do dia 23 de setembro de 2016, como sinal do aumento de confiança no governo. Contrapôs o dado à estimativa de crescimento de 0,5%, também para este ano, que rondava a cabeça dos analistas financeiros em 25 de fevereiro de 2016, quando o impedimento da ex-presidente já se delineava no horizonte.

O otimismo de setembro revelou-se precipitado. O mercado errou e o governo equivocou-se. Transcorridos pouco mais de sete meses, as previsões para o PIB de 2017 voltaram ao nível de fevereiro do ano passado. Um pouco abaixo, para ser correta, considerando a projeção de 0,47%, conforme captada pelo Banco Central no Boletim Focus do dia 5 deste mês, sexta-feira passada.

É, todavia, melhor do que a estimativa do FMI, que prevê crescimento de apenas 0,2% do PIB brasileiro neste ano. Se confirmado, seria uma variação praticamente nula.

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9 de fevereiro de 2017
O monetarismo revisitado, 100 anos depois

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado no Valor Econômico em 09/02/2017)

 

Criativo, e por isso polêmico, o economista André Lara-Resende suscitou uma reviravolta no meio acadêmico brasileiro com a publicação de um artigo na edição de 13 de janeiro deste jornal, sob o título “Juros e conservadorismo intelectual”. Idealizador, junto com Persio Arida, da moeda indexada em 1985 que redundou na URV do Plano Real em 1994, e criador da LBC (letra do banco central) na época do Plano Cruzado com  intenção de aliviar a relação entre a dívida pública e a política monetária nas operações entre o Banco Central e as instituições bancárias, tudo o que André escreve ou fala sempre desperta interesse.

Apesar do artigo de André no Valor não trazer nenhuma proposta, o simples fato de chamar a atenção para o debate monetário que circula na academia internacional foi suficiente para introduzir os economistas brasileiros na discussão.

No texto, ele replica e apoia os argumentos do economista norte-americano, John H. Cochrane, da Universidade de Stanford, de que a política de Quantitative Easing (QE), adotada pelos bancos centrais das economias desenvolvidas para debelar a crise de 2008 e estimular a atividade, estaria introduzindo uma grande novidade no campo das teorias monetárias pela persistência da baixa inflação com juros nominais próximos de zero.

Cochrane, no artigo “Michelson-Morley, Occam and Fisher: The Radical Implications of Stable Inflation at Near-Zero Interest Rates” (As Implicações Radicais da Inflação Estabilizada a Taxas de Juros Perto de Zero), de dezembro de 2016, apresenta o conceito de “estabilidade da inflação”, ou seja, apesar da maciça quantidade de moeda injetada nos mercados pelos bancos centrais nos últimos anos, da taxa de juro próxima de zero e dos estímulos fiscais, a inflação tem se mantido estável, contrariando a verdade monetária predominante em todo os século XX de que juros baixos estimulam a inflação, enquanto que juros altos funcionam para reduzir a inflação. A idéia de que a inflação é estável e determinada, defendida por Cochrane, se efetivamente procedente, viria romper sem dúvida com o paradigma monetário prevalente.

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8 de dezembro de 2016
Sobre a credibilidade do Banco Central

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado no Valor Económico em 08/12/2016)

 

Faz sentido o comentário do presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, noticiado ontem no Valor Online, de que a “autoridade monetária está com credibilidade demais”, ao ser indagado sobre as recorrentes pressões (para a redução dos juros). Quis dizer que o Copom pode vir a reduzir novamente os juros em janeiro sem que isso comprometa a reputação de guardião da estabilidade da moeda.

De fato, a considerar o prolongamento do quadro de recessão no país, com o PIB retraindo em 4% até o terceiro trimestre no ano, depois de amargar queda de 3,8% em 2015, o retrocesso no valor da produção interna é tão grande que não justificaria juros em patamar tão alto quanto a atual taxa da Selic, de 13,75% ao ano, aprovada na última reunião do Copom.

Não há dúvida também de que em meio aos perigosos embates que têm confrontado os três poderes em Brasília, com boatos espalhados nos quatro cantos, o Banco Central  consegue manter-se imune à  intriga política, a despeito das pressões de parlamentares, empresários e até de membros do próprio governo em prol de uma queda mais acentuada da taxa de juro de curto prazo.

O clima de barata voa que predomina no Planalto chegou a esbarrar no Ministro da Fazenda, como se viu na semana passada, comprometendo ainda mais as expectativas não apenas quanto à evolução dos indicadores econômicos, mas quanto à sustentação do governo Temer no poder.

Enquanto perdurar a investigação do envolvimento de representantes da classe política com a corrupção, não se deve esperar grandes evoluções positivas do PIB. No cenário de crise que se vive, é natural que os investidores prefiram esperar por dias de menor incerteza política.

Pois são justamente as dúvidas que se amontoam em um horizonte incerto, difícil de enxergar, que recomendam cautela ao Banco Central. O clima de insegurança política pode perfeitamente funcionar como elemento de instabilidade monetária, ainda que o PIB esteja em franca situação de fragilidade.

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17 de abril de 2015
Operações compromissadas X dívida pública

por Maria Clara R. M. do Prado

 

O artigo publicado na edição do dia 09/04/2015, no jornal Valor Econômico (ver abaixo), com críticas às operações compromissadas que se realizam no âmbito do Banco Central, suscitou reações diversas, de apoio e também de dúvidas. O tema é, sem dúvida, polêmico, e na maior parte das vezes incompreensível para quem não esteja acostumado a lidar com as tecnicalidades relacionadas ao contexto em que aquelas operações funcionam.

Primeiro, é preciso deixar claro que as operações compromissadas – envolvendo a “venda” ou a “compra” de dinheiro em troca de títulos, com clausula de recompra ou de revenda, conforme o caso – são realizadas universalmente, seja entre os vários agentes que atuam no mercado financeiro, seja nas relações de qualquer banco central com o setor bancário.

Sua importância na administração da política monetária é, no entanto, crucial. Através delas é que se regula o nível da liquidez da economia (disponibilidade de moeda), de modo a evitar que os juros caiam abaixo do patamar mínimo estabelecido pelo BC (no caso de liquidez abundante) ou que o dinheiro encareça em demasiado, comprometendo inclusive o custo da dívida pública.

No Brasil, as operações compromissadas têm algumas peculiaridades que acabam por distorcer a função central de instrumento regulador da liquidez e, por via de consequência, os juros e a própria inflação.

O primeiro problema é a estreita relação existente entre o Banco Central e o Tesouro Nacional. Apesar do desaparecimento da conta-movimento no final dos anos 80, pondo fim à atuação do Banco do Brasil como provedor ilimitado de recursos para o governo, funcionando como um canal de financiamento à dívida mobiliária, um ranço de simbiose permanece até hoje.

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13 de abril de 2015
Restam as operações compromissadas

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado no Valor Econômico em 09/04/2015)

 

Saudado com loas e broas nas últimas semanas pelos 50 anos de funcionamento, o Banco Central do Brasil avança no século XXI com a maturidade que se imagina consolidada na chamada meia idade. Não sem razão o aniversário é celebrado. O BC ganhou status de instituição respeitada dentro e fora do país pelo padrão de seu corpo técnico e pelas boas práticas que foi incorporando ao modus operandi da política monetária e da regulação e do sistema financeiro.

A evolução tornou-se possível a partir da estabilidade de 1994, que não foi, no entanto, suficiente. Introduziram-se novas e modernas abordagens que passaram a orientar a atuação dos bancos centrais no mundo a partir da década de 90.

Não faz muito tempo, era outra a situação. Inerte em meio a resistente processo inflacionário, tendo de competir com outros emissores de moeda caracterizados pelos bancos estaduais, confundindo funções com o Tesouro Nacional e sujeito a pressões políticas de toda a ordem, o Banco Central viveu sua década maldita mais acentuada entre o início da chamada Nova República e a efetivação do Plano Real, conforme testemunhada por quem o acompanhou de perto, no dia a dia.

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24 de janeiro de 2014
Dicotomias brasileiras

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 23/01/2014 no Valor Econômico)

 

A dicotomia tem imperado no Brasil. Seja no campo das expectativas, seja no mundo real dos fatos econômicos.

As expectativas ajudam a moldar o futuro mais imediato e de médio prazo. Começaram a ganhar maior relevância a partir dos anos 60 da década passada, quando os economistas “descobriram” o papel das expectativas racionais no desempenho dos modelos e das políticas econômicas.

Aquilo que as pessoas acreditam que possa acontecer, acaba de alguma forma acontecendo porque a maioria passa a se comportar a partir da expectativa predominante. O relatório Focus, por meio do qual o Banco Central busca levantar as projeções dos representantes do sistema financeiro para o comportamento das principais variáveis econômicas, nada mais é do que uma prova da importância das expectativas para a condução da política econômica.

Sua melhor utilidade ocorre quando o governo consegue guiar as expectativas de modo a que convirjam para os objetivos desejados. Sua pior utilidade é quando as expectativas passam a guiar a economia de modo a comprometer os objetivos desejados pelo governo.

A última alternativa tem prevalecido. Se não, que outra interpretação se poderia dar à reação do mercado, manifestada no boletim Focus e em análises avulsas, que mantiveram as projeções de inflação em alta mesmo depois de o BC ter aumentado para 10,5% a Selic, a taxa de juros de curto prazo? Note-se que o acréscimo de 0,5 ponto percentual veio bem acima daquilo que o próprio mercado esperava. O impacto nas expectativas, no entanto, foi pequeno.

Continua-se trabalhando com a hipótese de que os juros não vão subir muito mais porque a presidente não quer, e de que a inflação, por isso mesmo, permanecerá ascendente.

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16 de agosto de 2013
O Fed e as operações compromissadas

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 15/08/2013 no Valor Econômico)

Operação compromissada é o nome que se dá às transações entre o banco central e as instituições financeiras com vistas a regular o nível mais apropriado de reservas (dinheiro em “cash”) que os bancos devem ter em caixa vis a vis o objetivo de determinada taxa de juros de curto prazo.

Tais operações se realizam por meio da compra e da venda de títulos de renda fixa – normalmente, títulos do Tesouro – com cláusulas de revenda e de recompra, respectivamente. Ou seja, funciona como uma espécie de “porta” pela qual o Banco Central injeta ou recolhe liquidez da economia, por meio do sistema bancário.

Ao contrário do que alguns acreditam, essas operações não têm a função de financiar o Tesouro e nem contribuem para ampliar o endividamento público.

A taxa de juros de curto prazo é o principal instrumento de política monetária na era do regime de meta de inflação, mas os BCs podem fazer uso do mecanismo das operações compromissadas para recolher ou injetar mais recursos no sistema financeiro por meio da compra de títulos, com o compromisso de revendê-los de volta em determinado prazo. Essas operações, que normalmente envolvem uma pequena fatia do total de liquidez em circulação, poderiam ser classificadas de instrumento secundário no gerenciamento da política monetária no dia-a-dia.

Foi a elas que o Fed (o banco central dos Estados Unidos) recorreu maciçamente depois de 2008, a partir da crise financeira, na tentativa de reverter o franco processo de retração da economia americana. Optou-se pelo “second best” da política monetária, pois o “first best”, o instrumento dos juros, já então próximo de zero, havia esgotado sua eficácia.

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