Posts com a Tag ‘pobreza’

11 de agosto de 2016
Chegou a conta da globalização

Maria Clara R. M. do Prado

(publicado no Valor Econômico em 11/08/2016)

 

O mundo ficou menor com a crise de 2008 e encolheu ainda mais nos últimos quatro anos, revertendo inexoravelmente a época de fausto dos anos 90 e do início deste século. A globalização está sob ameaça. Os sinais são claros em todos os cantos para onde se olha.

Os analistas econômicos costumam apontar a expressiva queda ocorrida no volume do comércio internacional como causa do processo de “desglobalização”, expressão usada por alguns para denominar a nova etapa da história do mundo, ainda em curso e, por isso mesmo, não facilmente identificável. De fato, os dados são fartos em mostrar o declínio do fluxo comercial ocorrido nos últimos anos.

Segundo o “World Trade Statistical Review”, o novo relatório da OMC (Organização Mundial do Comércio), divulgado em julho, os últimos quatro anos contrastam com o “boom” vivido entre 1990 e 2008, época em que o volume de mercadorias comercializado mundialmente cresceu 2,1 vezes mais rápido do que a taxa do PIB, em média.

O ano de 2015 revelou-se o quarto ano consecutivo com o crescimento do volume de comércio abaixo de 3% e o quarto ano seguido em que o desempenho do comércio mundial praticamente equivaleu à taxa de expansão do PIB mundial. Também o fluxo dos serviços em termos globais caiu significativamente, como o setor de transportes que só no ano passado sofreu queda de 10%, confirmando a baixa demanda, a despeito dos preços em declínio do petróleo e de outras commodities, como os metais.

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21 de outubro de 2015
Retrocesso Distributivo

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 15/10/2015 no Valor Econômico)

 

As conquistas sociais da era Lula, com toda a razão efusivamente elogiadas no meio acadêmico internacional, estão em processo de desaceleração. O aumento do desemprego é hoje o sinal mais visível da transição da era das vacas gordas, que perdurou por dez consecutivos anos – o PIB cresceu, em média, 3,4% ao ano entre 2005 e 2014 – para o atual cenário de penúria econômica.

A previsão dos relatórios do FMI divulgados no encontro anual que acaba de realizar-se em Lima não deixa dúvida de que uma tempestade maléfica paira sobre o Brasil, com perspectivas de alongar-se por muitos meses.

A previsão de que o PIB do país recue 3% este ano e caia 1% em 2016 (FMI/outubro 2015) vem agravar substancialmente o estado de estagnação observado no ano passado. Fruto do necessário arrocho do setor público – que no Brasil sempre toma a forma do aumento de impostos, arrastando para baixo o setor privado com poucos resultados práticos em função da queda da renda – e de uma conjuntura internacional nada amigável, tudo caminha na direção do reverso para pior dos indicadores sociais.

É difícil ter-se hoje uma avaliação acurada sobre os efeitos do ajuste fiscal no resultado das políticas sociais, mas começa a haver estudos com o objetivo de medir o impacto da drástica queda observada nos preços internacionais das “commodities” ao longo dos últimos quatro anos no comportamento da renda, em especial nos países da América Latina, sabidamente os maiores beneficiários do “boom” dos bens primários e semimanufaturados.

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1 de julho de 2014
A questão distributiva na eleição

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 30/06/2014 no Valor Econômico)

 

Tão logo as luzes dos estádios se apaguem após a final da Copa do Mundo, a atenção do Brasil tenderá a voltar-se para a campanha eleitoral. Até aqui, pelo que se pode ver dos temas em discussão, têm-se mais do mesmo: juros, inflação, contas públicas, todas questões voltadas para o curto prazo e que azeitam o funcionamento do mercado financeiro, sempre preocupado com o mais imediato.

A questão distributiva, que tanto avanço teve nos últimos anos, ainda não entrou no debate. Apenas se ouve, aqui e ali, leves comentários de alguns candidatos da oposição e de seus proponentes sobre a necessidade de reduzir o nível de expansão do salário mínimo ou de estimular o aumento do desemprego como condições necessárias à maior expansão do PIB. Nem mesmo a candidata da situação tem dedicado tempo ao tema. Comete o mesmo erro do PSDB que, na eleição de 2002, preferiu colocar o Plano Real debaixo do tapete.

No entanto, depois da conquista da estabilidade em 1994, os programas do governo voltados para a distribuição de renda representam um importante passo para a transformação econômica e social do Brasil nestes 29 anos de democracia, o mais prolongado da história do país. Isso requer uma visão de longo prazo, mas não apenas. Também exige dos dirigentes a percepção de que o modelo concentrador de renda, tão estreitamente identificado com o Estado brasileiro desde a era colonial, está esgotado.

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22 de abril de 2013
Crescimento com maior equidade: hasta cuando?

por Maria Clara R. M. do Prado

Com os preços das commodities evoluindo mais moderadamente, no contexto de taxas ainda baixas de crescimento no países de economia mais avançada e também naqueles considerados “emergentes”, em especial a China, alguns analistas começam a prever taxas menores do PIB para os países da América Latina. Uma nova fase, de menor crescimento, estaria a caminho e o Brasil seria um dos mais afetados.

A pergunta que deve ser colocada, supondo a configuração de um cenário de menor prosperidade nos anos vindouros, é a seguinte: o que vai acontecer com a pujante classe média que nos últimos quinze anos foi significativamente ampliada em praticamente todos os países latino americanos? Tende a encolher? E a pobreza? Voltará aos níveis anteriores?

É cedo, por enquanto, para se saber a que ritmo, e se a menor, evoluirá o PIB na região. Vai depender de muitas variáveis. Primeiro, da movimentação do capital estrangeiro originário da abundante emissão de moedas fortes que tem alimentado a expansão das economias mais periféricas. Isso depende, obviamente, da percepção de uma retomada mais consistente e robusta nos Estados Unidos e na Europa, em especial. Segundo, do desempenho daqui para frente das contas públicas nos países latino-americanos face à nova realidade de menor ingresso líquido de divisas estrangeiras pela via da conta-corrente.

A julgar pelo que se pode enxergar hoje, é possível imaginar que, apesar de tender a um crescimento menor, a região não estaria sujeita a um retrocesso social e econômico para os deploráveis níveis das décadas de 80 (a região encolheu, em média, 0,2%) e de 90 (quando a expansão média do PIB não passou de 1,2%).

D e todo modo, são inegáveis os benefícios do inédito período de bonança que se espalhou pela América-Latina nestes primeiros anos do século XXI. Para sempre ficará registrado na história como a época em que os pobres viraram classe média, caracterizando-se como o período em que conseguiu-se conjugar o crescimento econômico com maior equidade.

O quadro abaixo, extraído de um longo estudo publicado recentemente pelo Banco Mundial,  mostra o que aconteceu na região, país por país, em termos de mobilidade social, com destaque para a significativa parcela dos que melhoraram de condição sócio-econômica.

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