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20 de abril de 2017
Mais envelhecimento, menos produtividade

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicada em 13/04/2017 no Valor Econômico)

 

Prezado leitor, pode ser que você não tenha tido uma babá, mas grandes chances há de que venha a precisar de um cuidador ou cuidadora quando chegar aos 80 e tantos anos de idade. Sim, a tendência é viver mais, porém com acentuada deterioração das funções cognitivas e baixa mobilidade corporal no final da vida.

É feio o quadro? Não, não é nem feio, nem bonito. Simplesmente é diferente daquele que existia no tempo dos nossos bisavós, quando a expectativa de vida representava, em média, praticamente a metade da idade em comparação com os dias de hoje. Quando Mozart morreu, em 1791, aos 35 anos, estava perfeitamente dentro da média dos 38 anos de idade para a expectativa de vida dos nascidos sobreviventes naquele momento, na Europa.

No Brasil, a expectativa de vida ao nascer na virada do século XIX para o século XX era de 30 anos. Em 2015, chegou, em média, a 75,5 anos. O rápido envelhecimento da população em geral, acentuado a partir do início dos anos 1900s, é um fenômeno tipicamente demográfico. Deriva dos estímulos da informação, da educação e das mudanças ocorridas no mercado de trabalho com a maior participação das mulheres, que ajuda a explicar a significativa queda na taxa de fertilidade mundo afora em pouco tempo, até mesmo na Arábia Saudita.

Segundo a OECD, a taxa de fertilidade média naquele país caiu de 7,28% em 1970 para 2,82% em 2013. No Brasil, para comparar, reduziu-se de 4,9% em 1971 para 1,8% em 2013, mesmo nível dos Estados Unidos e Reino Unido. Isso significa menos ingresso de gente jovem no mercado de trabalho.

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21 de junho de 2016
Uma PEC desamarrada da realidade

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 21/06/2016 no Valor Econômico)

 

A PEC – Proposta de Emenda Constitucional – que pretende fixar um teto para as despesas públicas da administração direta da União (menos despesas financeiras), apresentada pelo governo na semana passada, é uma boa ideia desprovida, porém, de conteúdo objetivo e de amarras operacionais, além de sugerir um precedente perigoso.

Não se discute a intenção de estabelecer um teto para os gastos por um período razoavelmente longo. Isto já deveria estar em vigor há tempos, o que certamente pouparia o país de atravessar o pior desempenho fiscal e que afeta, em voo rasante, as esferas federal, estadual e municipal.

Porém, nem sempre uma boa ideia vem acompanhada de mecanismos que a viabilizam. Parece ser o caso daquela proposta. De pronto, deve ser questionado o referencial sugerido para a fixação do teto. Atrelar os gastos ao comportamento da inflação é um precedente perigoso do ponto de vista da estabilidade monetária, alcançada a duras penas a partir de 1994 com o desaparecimento da memória inflacionária que orientava o funcionamento da economia brasileira.

É uma questão de princípio que, no mínimo, coloca em xeque a preferência pela desindexação. Mas não apenas isso. Traz também implícita uma dificuldade de operacionalização, na medida em que pressupõe para o futuro um cenário de expansão do PIB com inflação sob controle, única forma de produzir a almejada folga para a retomada dos investimentos públicos. Sabe-se que a receita cresce em termos reais quando há expansão da atividade econômica ou com o aumento da carga tributária ou com maior endividamento público.

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