27 de dezembro de 2013
Um PIB melhor para 2014

por Maria Clara R. M. do Prado

(publicado em 19/12/13 no Valor Econômico)

Não bastasse 2014 ser um ano de eleições majoritárias no país, a política econômica terá de se ajustar, no tato, ao processo de redução da liquidez que o Fed vem injetando na economia americana, em somas cavalares, desde 2008.

O governo brasileiro precisa mostrar-se eficiente naquilo em que é mais vulnerável: a incapacidade de enxergar adiante e de se antecipar aos fatos de forma organizada e coerente. Junte-se a isso um sério problema de comunicação, além de uma inacreditável dose de trapalhadas absolutamente desnecessárias, e está montado o cenário ideal para os especuladores que ficam à espreita, esperando a hora de atacar, sem a menor preocupação com os níveis de classificação de risco da dívida soberana, se estão em AA, A ou B.

Os comprados em dólar apostam na alta da taxa de câmbio. Quanto mais se propaga a piora do cenário econômico, mais ganham. Previsões ruins plantam mais incerteza e mais desvalorização cambial em terreno fértil. O ciclo se autoalimenta com a ajuda de desavisados que ajudam com o mau agouro.

Não há dúvida de que o governo é o principal responsável pela situação pois, não se sabe bem o motivo, insiste em agir de forma a contribuir para a disseminação das más notícias. O ponto crucial está no gerenciamento das contas públicas, cujo superávit primário deste ano acabou por ganhar um fôlego favorável com a nova rodada do Refis e os recolhimentos da Vale. Cabe ao governo cuidar para que as contas não descarrilhem inexoravelmente no ano que vem.

Pode recuperar o controle? Sim, se tiver vontade para isso. Sem dúvida deve ajudar a separação dos dados de Estados e municípios das contas do governo central. Cada ente federativo deve responder pelas suas contas e por sua responsabilidade nos resultados fiscais, e ser cobrado por isso pela população.

Outros indicativos têm se revelado menos catastróficos. A inflação, medida pelo IPCA, deve fechar este ano dentro da meta, embora acima do núcleo de 4,5%. Não se espera resultado muito diferente em 2014. A contas externas tendem a melhorar com a forte valorização do dólar face ao real nos últimos meses e com a esperada recuperação da economia mundial, notadamente dos EUA.

Vale sempre lembrar que o país está assentado, na posição de novembro, sobre US$ 376,1 bilhões de reservas internacionais em liquidez e registra dívida externa, pública e privada, de longo e curto prazos, de US$ 312 bilhões. Há conforto no setor externo, com suficiente bala na agulha a favor do BC, se quiser enfrentar o câmbio.

Quanto ao PIB, aposta-se ainda no pessimismo, como atestou o boletim Focus desta semana. A média dos analistas do sistema financeiro prevê agora crescimento de apenas 2% para 2014. Mas há perspectivas mais animadoras.

O economista Francisco Lopes, analista independente, vinculado à PUC-RJ e reconhecido pelos seus trabalhos acadêmicos sobre o processo inflacionário no país, projeta expansão de 3,2% do PIB para 2014. Vale ressaltar que Chico Lopes não tem vínculos com o PT e nem com qualquer partido da base do governo, antes de alguém imaginar que sua previsão está influenciada por motivação político-partidária, como, aliás, pode ser o caso de outros economistas também academicamente conceituados.

O que explicaria a divergência de projeções? “Acho que resulta de hipóteses diferentes sobre pelo menos três fatores: o efeito da desvalorização cambial, o comportamento da extrativa mineral e o papel das expectativas e da confiança, atesta Chico. Algumas questões envolvem duvidas quanto a forma como o desempenho da economia está sendo captado.

Por exemplo, ele comenta o fraco desempenho no período 2012-2013 da produção de bens não duráveis (sapatos, roupas, alimentos, entre outros), que cresceu zero, e de bens intermediários, que caiu quase 1,5% no acumulado dos dois anos. Ele observou que os dois segmentos apresentam altas relevantes de 24% e de 27%, respectivamente, na quantidade importada.

Considerando a defasagem entre a encomenda e a entrada da mercadoria na pauta de importações, ele acha que o fraco desempenho daquela produção nacional nos últimos dois anos pode estar relacionado à forte apreciação da taxa real de câmbio (ajustada pelos IPCs) acumulada ao longo de dez anos e que levou o dólar ao fundo do poço em meados de 2011.

” Se isso é verdade, a evolução do câmbio nos últimos dois anos deve ter impacto positivo sobre a produção nacional a partir de 2014″, observa Chico, lembrando que no biênio 2012-2013 a taxa cambial sofreu desvalorização real acumulada de 20%, na posição de final deste ano. A recuperação daqueles dois setores da atividade produtiva do país explica em boa parte sua projeção de crescimento de 3,4% da indústria de transformação para 2014.

Chico Lopes conta também com forte recuperação do setor extrativo mineral que, ajudado pelo câmbio e pela retomada da economia mundial, deve evoluir de algo em torno de 1,5% neste ano para um aumento de 5% em 2014.

Também o câmbio deve ajudar na taxa de crescimento do PIB da construção, de 2% este ano para 3,8% no ano que vem. Há, aqui, um ponto que intriga Chico. Trata-se da aparente discrepância entre o baixo desempenho do setor da construção e a quantidade de estádios, metrôs, estradas e outras grandes obras de infraestrutura facilmente identificadas por onde se anda. Só a importação de insumos para o setor explicaria o fraco desempenho nas contas nacionais até aqui.

De resto, há o fator expectativas negativas a influenciar. “O cenário da ‘tempestade perfeita’ é apenas uma fantasia de especuladores, só tende a ocorrer no caso de um manejo desastroso da política econômica”, frisa ele.

2014 será também o ano da Copa no Brasil. Vamos confiar que os ânimos se descontraiam e que a previsão do Chico se confirme, para o bem de todos.

Boas Festas!

 

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